
quinta-feira, 28 de maio de 2009
any way the wind blows [2:58]
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Eternal Life

This is a song about...it’s an angry song. Life's too short and too complicated for people behind desks and people behind masks to be ruining other people's lives, initiating force against other people's lives on the basis of their income, their color, their class, their religious beliefs, their whatever...
[1966-1997] Jeff Buckley
segunda-feira, 18 de maio de 2009
No silêncio

Sempre pensei que os sonhos se construíam por si, por entre simples devaneios mágicos, pequenos toques de luz e cor que uma qualquer folha transporta na sua descida. Esse instante representa a vida, a razão e o sentido que se dissolvem sozinhos no silêncio.
Nesta melodia fonética, ou frenética, a realidade movendo-se por entre fios e nós, elos que se alimentam mutuamente numa dança declamada, hostilmente recitada.
Como fui capaz de algum dia ignorar? O velho sabe, ele compreende porquê. Segredos que o mar transporta incessantemente, gritos mudos que só os surdos ouvem. No silêncio.
domingo, 10 de maio de 2009
O FAROLEIRO DE SARDÃO
Não confio nos homens, ainda menos em Deus.
Talvez seja por isso que nunca durmo. Mantenho-me acordado durante a noite ou caio dentro duma espécie de limbo sonolento. Ouço e vejo tudo o que se atravessa no feixe luminoso do farol.
Repito: não confio nos homens. Confio na sabedoria remota das minhas mãos. E, mesmo que cegasse, elas continuariam sempre a pôr em movimento a engrenagem das luzes.
Metade da minha vida foi passada aqui, entre a noite e os espelhos reflectores. Já não me lembro em que idade comecei. O oceano é tão escuro quanto a minha infância.
Diariamente subo ao cimo do farol que se ergue no alto das falésias, ao anoitecer. Isolo-me do mundo; e, neste isolamento, amaldiçoo por vezes a vida - enquanto a luz se acende, adquire intensidade, e varre a fúria do oceano.
De vez em quando, vêm pássaros embater contra as vidraças a ferver do farol. Cegam com a luz, morrem queimados. E os navios que continuam as suas rotas, avisto-os, e parecem um brinquedo a flutuar. Somem-se na escura tormenta.
Em toda a costa sou o único homem acordado, sem amigos e sem família. Zelo pela vida daqueles que navegam noite dentro. O jacto luminoso do farol é o sinal de quem os acompanha e pensa neles.
Consigo ver no escuro, até onde nenhum homem consegue ver; mas não acredito em Deus.
Enquanto não amanhece escrevo o relatório diário, e nele anoto, também, o que a imaginação me revelou. Um dia, ninguém saberá onde começa e acaba a verdade. Entre a hora de acender e apagar o farol, anotei: passagem de golfinhos e de sereias, de navios fantasmas, de embarcações que mal tocam nas vagas, astros que pousaram sobre o dorso de uma baleia, alcatrazes que se incendeiam, de repente, em pleno voo.
Sou muito velho, quase tanto como o farol. Vi muitas coisas, posso contar todas as histórias que me vierem à cabeça.
E não abandonarei, nunca, o meu posto. Continuarei aqui, rodeado pela escuridão do mundo, atento ao que nasce, inesperadamente debaixo da luz. Repito os gestos dos meus antepassados, e é nessa perenidade de gestos repetidos, exactos, que se prolonga a solidez do farol.
Quando a tempestade o sacode desde os alicerces, e o mar ressoa escadas acima como se o fosse engolir de um momento para o outro - fico tranquilo; porque sei que depois da minha morte, à hora certa de o acender, dentro de mil anos, tudo será executado, como o acabo de o fazer.
AL BERTO [1948-1997]
AL BERTO [1948-1997]
ISNA
Rodeado de um silêncio atroz, repousam as ruínas dos moinhos, torneados pelo tempo e sepultados no inconsciente da memória…
Recalcados. Desnudos. Emergem de um imponente mas já desgastado leito, penetrante entre imaculados vales de cumes quase inalcançáveis, lembrando vagamente opacos arco-íris que outrora brilhavam ferozmente. Neles jaze o sangue que lhe constitui, que flui nas suas veias para sempre - vulgo a Isna.
Caminhando devagar. Focando o infinito da imagem. Desponta o caos da sua percepção, como a contra luz de um pôr-do-sol iluminando os vultos do passado. Metafísica determinada em alcançar, em beber de algum do suor derramado. Fluído conhecimento transportado pelo pão, pelo nectar dos deuses, pelo o brilho das gentes condutoras de ossos... elas, as gotas de orvalho que perfuraram aquelas ruínas. Gotas elementares de cor e luz que se movem hoje por entre teias, contemplando o silencio que navega há deriva.
Isna imagina o som dos movimentos frenéticos que ondulavam por entre ventos e marés. Imagina engenhos cinzelados por mãos ásperas, conspurcas puras, que se dissolviam em movimentos subtis. Memórias envolvendo-se por entre as folhas secas do Outono, como o cheiro do pão que imagina actual.
Entre as vagas de chuva alternadas pelo vento, ressuscita o perfume do húmus molhado...então, Isna liberta o seu grito para eternidade...
- Hoje em ruínas me encontro, perante a força das figueiras estranguladoras que me encarceram e me privam de luz! Que me sugam a seiva do cerne interior da minha alma! Em mim emergem novos templos...amontoados de destroços.
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