
Não confio nos homens, ainda menos em Deus.
Talvez seja por isso que nunca durmo. Mantenho-me acordado durante a noite ou caio dentro duma espécie de limbo sonolento. Ouço e vejo tudo o que se atravessa no feixe luminoso do farol.
Repito: não confio nos homens. Confio na sabedoria remota das minhas mãos. E, mesmo que cegasse, elas continuariam sempre a pôr em movimento a engrenagem das luzes.
Metade da minha vida foi passada aqui, entre a noite e os espelhos reflectores. Já não me lembro em que idade comecei. O oceano é tão escuro quanto a minha infância.
Diariamente subo ao cimo do farol que se ergue no alto das falésias, ao anoitecer. Isolo-me do mundo; e, neste isolamento, amaldiçoo por vezes a vida - enquanto a luz se acende, adquire intensidade, e varre a fúria do oceano.
De vez em quando, vêm pássaros embater contra as vidraças a ferver do farol. Cegam com a luz, morrem queimados. E os navios que continuam as suas rotas, avisto-os, e parecem um brinquedo a flutuar. Somem-se na escura tormenta.
Em toda a costa sou o único homem acordado, sem amigos e sem família. Zelo pela vida daqueles que navegam noite dentro. O jacto luminoso do farol é o sinal de quem os acompanha e pensa neles.
Consigo ver no escuro, até onde nenhum homem consegue ver; mas não acredito em Deus.
Enquanto não amanhece escrevo o relatório diário, e nele anoto, também, o que a imaginação me revelou. Um dia, ninguém saberá onde começa e acaba a verdade. Entre a hora de acender e apagar o farol, anotei: passagem de golfinhos e de sereias, de navios fantasmas, de embarcações que mal tocam nas vagas, astros que pousaram sobre o dorso de uma baleia, alcatrazes que se incendeiam, de repente, em pleno voo.
Sou muito velho, quase tanto como o farol. Vi muitas coisas, posso contar todas as histórias que me vierem à cabeça.
E não abandonarei, nunca, o meu posto. Continuarei aqui, rodeado pela escuridão do mundo, atento ao que nasce, inesperadamente debaixo da luz. Repito os gestos dos meus antepassados, e é nessa perenidade de gestos repetidos, exactos, que se prolonga a solidez do farol.
Quando a tempestade o sacode desde os alicerces, e o mar ressoa escadas acima como se o fosse engolir de um momento para o outro - fico tranquilo; porque sei que depois da minha morte, à hora certa de o acender, dentro de mil anos, tudo será executado, como o acabo de o fazer.
AL BERTO [1948-1997]